terça-feira, 22 de março de 2011

Pela janela do quarto de alguém

A cadeira está parada no centro do quarto de alguém, onde pendura-se uma bolsa, grande e florida. Uma toalha rosa, uma blusa de frio, feita de tricô, em cima de uma tiara, que originalmente tem o aro preto, tinha um aro quase todo cinza e algumas flores marrom. Detalhe que a cadeira parada no centro do quarto de alguém tinha, do lado esquerdo dela, um enrolado de fita vermelha, que alguém ali o colocou.
O dia está claro, mas a lâmpada do quarto de alguém está acesa, o forro de gesso, que cobre o quarto à quatro anos, já úmido demais com as chuvas de outrora e o mofo está por aparecer.
No chão um tapete, de letrinhas, igual àqueles de brinquedoteca. Em cima existe ali sentado um alguém de alguém. Aos seus pés, livro, dois livros e mais um livro, folhas espalhadas pelo tapete... Existe ali também, uma borracha branca, não tão branca assim, escrito um nome de alguém, tem também um apontador de lápis, roxo, uma lanterna, para iluminação de emergência, com a lente um tanto quanto rachada. Não pude deixar de notar também, ao canto do tapete de alguém, uma imagem, a imagem de alguém que pede paz.
A cena mudou. A lâmpada já está desligada e a tiara de alguém não está mais sendo amassada por uma roupa de tricô verde-água. Agora eu vejo ao lado da tiara, um pente verde, de dentes não tão finos e uma escova de cabelos de cor escura, preta ou azul. A luz está acesa.
Vejo fotos e cartas de/para alguém num mural que está na parede. Livros, cadernos, agendas e cds organizados numa prateleira, ao lado de uma caixa que traz como descrição: "CONVERSE". Uma caixa preta. -- "O que será guardado nela ?". Ao lado ainda existe um canudo de formatura, escuro com dourado, bonito. Vejo bonecas, ursinhos de pelúcia, frascos de perfumes, creme leave-in para cabelos, creme hidratante para a pele e outros produtos de beleza numa outra prateleira, da mesma prateleira.
A janela entreaberta do quarto nada esconde se a cortina verde está aberta, nem mesmo as fotos de famosos e modelos de marcas grandes que estão pregadas na porta do quarto. Vestidos pendurados, roupas em cima da mesa, ao lado de agendas, porta cds, maquiagem, cadernos, pastas, fotos, relógio e uma tesoura eu vejo no quarto de alguém.
No quarto de alguém, eu vejo pastas, livros, cadernos, caixas e alguns pacotes de presentes de alguém para outro alguém, organizados em setores, nas prateleiras de um armário velho e repintado de amarelo em uma de suas laterais, onde há uma outra toalha desbotada pendurada na porta.
Pela janela do quarto de alguém, vejo que alguém sente muitas dores, não são essas dores físicas, mas dores do coração, dores da alma. Feridas que não se fecham, que não se curam não são fáceis de se esconder de alguém que lê as entrelinhas de seus pensamentos. Dores que só pioram, feridas que só aumentam, marcas que só ficam ainda mais fortes com o tempo, sorrisos que se escondem cada vez mais, olhares que se afundam sempre mais na amargura do 'viver'.
O cenário muda, mas a vida continua a mesma sempre. O mundo é o mesmo, as dores aumentam, o amargo fica mais amargo, o doce deixa de existir e a vida pára e acaba a graça de viver.
A cena muda outra vez.
Pela janela do quarto de alguém, vejo no quarto de alguém, ao lado do tapete de letrinhas, de frente com a porta, ao lado de uma placa de isopor coberto com um pedaço de TNT azul, um corpo. O corpo jorra sangue, não sei d'onde e o sangue mancha o tapete de letrinhas. O 38 usado se deita ao lado do corpo e chora a bala perdida.
Pela janela do quarto de alguém, eu vejo, eu vejo alguém.

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